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31/05/2010
Cabine 8 da Biblioteca Central: surge a TX 107,3
Por Núcleo de jornalismo
Quem completa 21 anos em 2010 pode até não saber, mas foi gerado logo depois de um grande movimento no Brasil: a reivindicação pelo direito de eleger o Presidente da República. Logo depois, foi tempo de constituinte em um clima de conquista de liberdades coletivas e individuais. Na segunda metade da década de 80, ninguém ainda falava de Universitária FM, mas o papo de “rádio livre” virava uma onda na juventude e, é claro, encontrava terreno fértil no campus da Universidade Federal do Espírito Santo.
A criação da Rádio Universitária foi fruto da teimosia de um grupo de jovens estudantes que acreditavam que a Ufes deveria ser responsável pela primeira rádio universitária do Estado. Em 1986, da cabine 8 da Biblioteca Central, irradiava-se para todo o campus música, informação, entretenimento e um bocado de rebeldia.
O jornalista Hernandes Zanon, que fez parte do grupo de alunos do curso de Comunicação Social da Ufes responsável pelas primeiras transmissões da rádio, conta que a TX 107,3 - nome da rádio à época - ocupou uma faixa livre que tinha sido designada pelo Ministério das Comunicações para que uma rádio universitária fosse criada no Espírito Santo. A Faesa foi a única faculdade a fazer pedido para concessão e a Ufes havia ficado de fora do processo. Revoltados, os alunos resolveram protestar, transmitindo nessa faixa. "Decidimos partir para uma radio livre, algo meio subversivo, mas que contava com o apoio de alguns órgãos públicos de cultura", lembra Zanon. "Paralelo a isso descobrimos que a universidade tinha uma faixa no dial - que era justamente a 107,3 - e que a Ufes e o Departamento de Comunicação não tinham interesse", relata. Prato cheio para os alunos.
Já o professor Cleber Carminatti, que atualmente é do Departamento de Comunicação, também participou do grupo que transmitia ilegalmente na TX 107,3 e conta que a rádio era um projeto acadêmico, assinado pela professora da disciplina de Radiodifusão, Glecy Coutinho. "Fazendo radiojornalismo no curso sentimos necessidade de exercitar a disciplina. Montamos essa rádio livre, com transmissor "pirata", na cabine 8 da biblioteca da Ufes", explica o professor, ressaltando que havia um projeto para que isso fosse feito. "Apresentamos o projeto para a professora de rádio, para a biblioteca e ficamos no ar por 33 dias", conclui.
Por várias vezes o Departamento Nacional de Telecomunicações (Dentel), que regulamentava a utilização das faixas de rádio, tentou fechar a TX 107,3, mas não conseguiu. Outro aluno da comunicação que participou do movimento que deu origem à rádio livre foi Guilherme Klaus, repórter da TVE e da TV Capixaba, e recorda o fato. “Todo mundo que participou do movimento protegia a rádio. Quando o Dentel soube que a TX estava na biblioteca desplugamos o transmissor e carregamos para outro lugar.”
Hoje professor da Ufes, Luciano Ribeiro era técnico em eletrotécnica e ajudava a fazer pequenos transmissores. Para ele, falar nas ondas do rádio era um direito, uma conquista que só foi possível por causa de comunicadores que acabaram se tornando militantes. “Muita vezes optávamos por não estar na sala de aula. Esse era o espírito de militância, de liberdade: de questionar, de refletir o mundo, as idéias que estavam colocadas na década de 80. E como se manifestar? Através da cultura”, filosofa Luciano.
Hernandes Zanon destaca que o ponto mais importante é o fato de a rádio ter nascido de um movimento autêntico de alunos da universidade. Porém a relevância da Rádio Universitária para o cenário capixaba não se resume a isso. Ao longo dos mais de 21 anos, desde o início do movimento pela sua criação, a Universitária deu grandes contribuições para a cultura, o jornalismo e a formação da identidade capixaba. |